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sexta-feira, 22 de março de 2013

Eu sou a sua coisa preferida agora


Ontem eu pedi pra ela parar de ver novela e ler pra mim até eu dormir e ela aceitou sem reclamar. Não bateu o pé, nem chiou. Apenas se levantou, pegou um dos seus textos preferidos - esse que eu mesmo escrevi para ela - e leu para mim. Sua voz alta e serena causavam em mim um milhão de sensações, o calor do teu corpo sentado ao meu lado me fazia fechar os olhos e não temer a escuridão e ao vazio que sempre apareciam quando ela não estava presente, mas ela sempre estava e então eu não tinha mais o que temer. Eu a amava pelo que ela era, e a amava mais ainda por abdicar das suas coisas preferidas por mim. Logo eu, o garoto estrago. Onde todo aquele mal jeito tinha parado? Quando ela tinha ficado pra trás? Eu pensava nessas coisas e ela continuava a ler, com sua voz calma e tranquilizadora, meus olhos se fechando na mesma intensidade dos seus toques no meu cabelo e, vez ou outra, nos meus lábios. E eu adormeci ali, em meio as suas palavras, banhado de amor. Acordei e ali ela estava, deitada ao meu lado, me olhando dormir, abri os olhos e a primeira coisa que vi foi o seu sorriso, seguido de um "bom dia, meu amor". Ergui as sobrancelhas e perguntei porque ela havia deixado de assistir a sua novela - essa mesma, que sempre deixa claro que não troca por nada - para ler para mim e me fazer dormir, ela apenas alisou o meu rosto e disse "você é a minha coisa preferida agora" e então eu sorri.

Naianara Barbosa 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Jaz

Me diz como escrever coisas sem aqueles monótonos clichês que existem a décadas? Sem usar aquelas metáforas já conhecidas e pouco entendidas? Como posso dizer que eu nunca antes havia amado, se nem hoje tenho certeza? Me apaixonei, isso digo com todas as letras, me apaixonei pela mesma pessoa todos os dias e não me arrependo em nenhum deles. E acabou. Eu me detive em meio a um sorriso torto e acenei o braço como se não sentisse algo em relação a tua perda - talvez provisória, talvez eterna. E a cada passo fui me refazendo, com um sorriso em meio a uma lagrima, nem sempre achando uma mão estendida, mas sempre ouvindo comentários como "Tão menino, meu Deus, e já um mundo a sangrar em suas mãos".

Naianara Barbosa

sábado, 5 de janeiro de 2013

Sempre o mesmo remetente


Eu to sentada na varanda da minha casa de praia tentando escrever mais uma carta sem remetente que traduz o que quero falar pra alguém. Traduz o que já ensaiei diversas vezes mais que no final não sai, eu gaguejo, fico sem ar e abaixo a cabeça. Tentei mostrar o melhor lado de mim, mas várias vezes me perguntei se esse lado realmente existia. Eu quis me entregar sem ter o que temer, mas eu não me entreguei, desculpe-me. Não me entreguei por não saber até onde iria. Poderia ser pra sempre e poderia acabar na segunda feira, e eu não estava errada. Prometeu-me a lua, mas foi embora antes do por do sol, querido. Eu fiz tudo o que podia, mas não era o suficiente, não era tão bom quanto eu pensava, ou esperava, ou imaginava. Não era pra ser você. A culpa não foi sua e nem minha, simplesmente não era pra ser. Eu criei cenas que queria viver, mas não conseguia te encaixar nelas, de alguma forma nos combinávamos, porém não nos completávamos. Eu gostei de você, e gostei mais ainda quando você me fez gostar de mim e agradeço por isso. Temos que admitir, tava tudo uma merda. Mas tava uma merda ao seu lado e pra mim podia continuar assim, mas não foi possível, não foi. Sinto dizer, mas as diferenças nem sempre unem as pessoas, as vezes elas só afastam cada vez mais. Essa carta não era pra ter um remetente, mas como todas as outras, ela acabou sendo pra você.

Naianara Barbosa 

Quem não quer ser feliz? Me diz.


Minha manhã? Minha manhã começou assim: Os pés melados de areia e os raios de sol atrapalhando a minha visão. Na madrugada andei e sentei-me na beira da praia, inicialmente estava escuro e passadas algumas horas eis que o sol nasce e tudo se modifica. Não pensava em nada, apenas estava ali olhando o mar. Os raios de sol turvavam a minha visão e enquanto eu andava na beira da praia, as ondas batiam nos meus pés. Admito que aquilo fez com que eu me sentisse livre, como se nada mais pudesse me apreender ou me aprisionar. As ondas batiam nos meus pés e aquilo mostrava que eu podia ir para qualquer lugar a partir dali, porque a liberdade me tomava. Mas algo se debatia dentro de mim, algo ainda sussurrava ao meu ouvido que eu não podia fazer aquilo, pois de nada me adiantaria ser livre e não ser feliz. Faltava algo, faltava a força pra seguir em frente, faltava a mão que eu seguraria, faltava a segurança, faltava o que eu mais precisava. Faltava você. E então voltei e te esperei. Eu quero ser livre, mas antes eu preciso ser feliz. 

Naianara Barbosa

terça-feira, 27 de novembro de 2012

A aurora da filosofia grega


Nada fazia sentido, os amores não correspondidos eram como folhas que caiam no outono. De longe os pássaros cantavam baixo, no frio da noite em que se escondiam e cantarolavam para espantar as possíveis – e ferozes – mágoas. E ficavam ali até o amanhecer, e viam o sol nascer. Voando rumo ao horizonte, esqueciam-se da noite passada e retomavam suas alegrias. E a noite, outra árvore os recolhia. O escuro despertava pavor, mas não mais, agora eles se agarram e se acham ali, no tom mais tenebroso das 24 horas, fugindo dos deuses e ansiando pelo novo raiar.

Naianara Barbosa

Os (não tão) imperceptíveis movimentos da terra


Era manhã cinzenta e o sol já não aparecia a dias. Levantara então da cama e o café estava posto, seu pão integral e café puro, ainda quente. O tão conhecido recado na geladeira estava preso por um ímã de coração. Ele pegou a xícara de café e leu em voz alta: “Querido, cá estou eu falando por recados de novo, perdoe-me. Preciso comprar coisas. Não fique bravo, em poucas horas estarei ao teu lado. Com amor, Mel.”. Ele sorriu e sentou-se na mesa, lá tinha um outro bilhete que dizia “Construção de uma casinha...”, e com os lábios molhados de café, pensou: “Afinal, a minha casinha completa a dela.”. Ele sempre dissera que iria deixar o mundo dar suas próprias voltas, e foi numa dessas voltas que ele a encontrou, e a amou... E dali em diante ele sabia que seu mundo não daria mais volta nenhuma, se não estivesse colado ao dela.

Naianara Barbosa

Acordo inútil, merda


Fiz então um acordo com a dor: Trocamos de lugar. Eu te faço mal agora, eu te faço chorar, eu te faço enlouquecer dentro de si. Ela riu de mim e disse que não fazia tão mal assim a ninguém, mas aceitou.
Três dias foram suficientes para que ela se arrependesse de ter aceito. Ela implorou para me fazer desistir de manter o desafio, para voltar ao seu lugar. Ela se ajoelhou e chorou, e se arrastou pelos cacos no chão, grudada aos meus pés. Olhei ela e senti – não sede de vingança – mas, pena. Aquelas dores eram minhas, ela não precisava senti-las, apenas eu. Então troquei os papéis de novo. Voltei a sentir minhas próprias dores, e vi a dona Dor ir embora, sem sentir nada, fazendo apenas o seu papel: Machucar a vida das outras pessoas, mas não a dela. Não, a dela não. E, eu bem sei, ela nunca mais aceitaria nenhum desafio.

              – Fiz então um acordo como sorriso: Apareça, meu querido, apesar de qualquer coisa.

Naianara Barbosa


sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Sou o teu encalço


Sou a fotografia preta e branca na parede da casa, sou a poesia estonteante que mora em minha alma, sou o pássaro renascido que abre voo, sou a plebe indignada com a sua condição, sou o fogo que queima, que arde e incendeia. Sou de tudo um pouco, sou do nada um terço, sou a criança ou o berço, sou o recomeço. Sou o segundo, o instante, a calmaria – sem nada mais a manifestar –, sou o que calo diante dos tons graves e me contorço com os timbres agudos, sou o vilarejo abandonado de onde se vê o por do sol e um casal de velhinhos. Sou a palavra que te atinge, sou o delírio que te comprime, sou o vendaval que passa e bagunça, e arrasa, e arrasta tudo que um dia foi seu. Sou a noite fria, sou tua moradia, e sem perceber fomos ficando iguais, duas luzes distantes demais.

Naianara Barbosa Melo